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CUT é "esteio"
do governo, afirma dissidente
Sindicato dos docentes pediu desligamento da central por não concordar
com seu posicionamento na gestão Lula.
Depois de 16 anos filiado à CUT, o Andes (sindicato nacional de
docentes das instituições de ensino superior), que representa
74 mil professores das universidades públicas e privadas, encaminhou
anteontem seu pedido de desligamento da central.
Marina Barbosa, presidente do Andes, afirma que a saída da CUT
é discutida desde que a central tomou "posições
contrárias" aos servidores durante o processo da reforma previdenciária.
Ela critica a reforma sindical defendida pelo governo Lula e afirma que
a CUT serve de "esteio" para o governo. Leia a seguir os principais
trechos da entrevista.
Folha - Por que o Andes decidiu se desfiliar à
CUT?
Marina Barbosa - Esse debate vem sendo feito nos últimos
dois anos dentro do Andes. Há duras críticas à postura
política da central, em relação às reivindicações
da categoria e ao funcionamento da CUT. Internamente, notamos um estrangulamento
do processo interno de democracia. Ao longo do tempo, as medidas adotadas
pela direção majoritária da CUT foram cerceando e
afunilando cada vez mais a participação da base, que são
os sindicatos, nos eventos de deliberação da central.
Folha - Que medidas são essas?
Barbosa - Desde o governo FHC, a central assumiu atitudes que relativizam
os interesses dos trabalhadores. A CUT discutiu e aceitou, por exemplo,
a adoção de bancos de horas e de câmaras setoriais
que envolviam negociatas em torno de reivindicações dos
trabalhadores. Para os servidores, isso ficou claro na reforma da Previdência,
que foi traumática.
Folha - Por quê?
Barbosa - Os servidores públicos tentavam impedir que a
reforma fosse aprovada. Mas a CUT encaminhou e aceitou uma série
de proposições que não atendem às demandas
da categoria. Uma delas são os fundos de pensão, que serão
criados para complementar as aposentadorias de servidores. Isso significa
que o Estado não vai se responsabilizar pela integralidade da aposentadoria
ao abrir espaço para o capital privado nesse setor. A CUT defendeu
isso, o que prova o quanto é capaz de negociar direitos históricos
em nome de suposta modernização.
Folha - A CUT é "governista"?
Barbosa - A central tem servido de esteio para sustentar posições
e projetos do governo no movimento sindical. A reforma sindical é
a mais clara prova disso.
Folha - Governo e centrais sindicais afirmam que
a reforma foi discutida durante 16 meses no Fórum Nacional do Trabalho.
Barbosa - A CUT foi para o fórum sem consultar os trabalhadores.
Foi falar em nome deles sem nunca chamar um debate para saber o que eles
pensam.
Folha - O Andes é contra a reforma sindical?
Barbosa - Não concordamos com o projeto. Ele desloca da
base dos sindicatos o poder de decisão sobre seus conflitos. Se
o problema não for resolvido no âmbito do sindicato, é
delegada à central, por força de lei, a resolução
desse conflito.
Folha - E quanto à sustentação
financeira dos sindicatos, o projeto não traz avanços?
Barbosa - Não. Somos totalmente contra a contribuição
negocial, que será criada e vai deslocar parte dos recursos para
as centrais. Também somos contra o imposto sindical obrigatório,
que existe há 60 anos. O Andes defende o funcionamento dos sindicatos
sem nenhuma forma de contribuição compulsória. Vivemos
da mensalidade espontânea dos associados.
Folha - Alguns especialistas criticam o projeto
dizendo que o poder do Estado vai aumentar.
Barbosa - O projeto não vai permitir a liberdade e a autonomia
sindical, que sempre foram bandeiras históricas da CUT. A perspectiva
não é ampliar a liberdade, dando a chance de o trabalhador
escolher a quem quer se filiar. O projeto atrela os sindicatos ao Estado,
que vai reconhecer a personalidade sindical de uma entidade e vai conferir
critérios de representatividade.
Folha - Como o Andes avalia os dois anos de governo
petista?
Barbosa - O governo Lula dá continuidade a uma política
econômica adotada há mais de dez anos. A lógica tem
sido aprofundar essa política, com juros subindo e renda caindo.
Em nome da modernização do Estado, o país retrocede
na distribuição de renda e na criação de empregos
dignos. A economia, quando cresce, atende às demandas do capital.
Folha - É mais fácil negociar salário
com o governo petista?
Barbosa - No ano passado, as negociações salariais
foram interrompidas pelo governo, que decidiu instituir uma medida provisória
[com reajuste para a categoria variando de 10,15% a 35%]. O governo não
aceitou a reivindicação do Andes de equiparar os valores
entre aposentados e docentes na ativa. Também pedíamos a
incorporação das gratificações aos salários,
mas não fomos atendidos. Foram mais de 30 dias em greve, mas o
reajuste médio, de 12%, foi dado à gratificação.
Folha - Qual o salário médio de um
professor universitário?
Barbosa - O de um professor-mestre numa universidade pública,
com 15 anos de serviço, deve chegar a R$ 2.800. O problema é
que esse salário é composto em 55% por gratificações.
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