| |
Tarso Genro: "Onde está
o neoliberalismo?"
Boletim ADUnB - Num
primeiro momento o governo estabeleceu o período das férias
nas universidades para a apresentação das contribuições
da comunidade acadêmica ao anteprojeto de reforma universitária.
E só depois de muita pressão estendeu um pouco o prazo,
que ainda é considerado curto para uma questão tão
complexa como a reforma do ensino público superior. Por que a pressa
nessa reforma?
Ministro Tarso Genro - O governo não estabeleceu o período
das férias nas universidades para a apresentação
das contribuições da comunidade acadêmica ao anteprojeto
da reforma da educação superior. Há um ano, o Ministério
da Educação vem construindo uma proposta de Reforma da Educação
Superior e recebe colaborações de mais de duas centenas
de entidades. Desde o ano passado, o MEC promoveu mais de 400 encontros,
para a elaboração do seu anteprojeto, que contou com a participação
de mais de 230 entidades. Até o dia 30 de março, o MEC ainda
receberá propostas de mudanças no texto que será
enviado à Casa Civil da Presidência da República.
Depois teremos uma nova fase de discussões.
Boletim ADUnB - O
governo diz que o conjunto de medidas já adotadas, como o ProUni
(Programa Universidade para Todos), a Lei de Inovação Tecnológica,
o SINAES (Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Superior), o Projeto Parcerias Público-Privada e a Educação
Profissional Tecnológica, não está relacionado à
reforma universitária. Mas todas essas iniciativas trazem embutida
uma concepção mercadológica da universidade - ou
seja, a idéia de transformar as instituições públicas
de ensino superior em meras formadoras e provedoras de mão-de-obra
especializada para atender às necessidades do mercado, esvaziando
seu papel de centros de excelência que pensam o país a longo
prazo. Existe alguma preocupação do governo, dentro da reforma
universitária, de preservar esse caráter estratégico
de nossas universidades públicas do ponto de vista do desenvolvimento
científico, tecnológico e cultural?
Ministro Tarso Genro - Uma leitura do anteprojeto já responde
a sua pergunta. Não é à toa que setores políticos
e econômicos que percebem a educação como uma mercadoria
estão se posicionando contra o projeto. Respondendo objetivamente
à sua pergunta, podemos afirmar que o caráter estratégico
das universidades públicas, do ponto de vista do desenvolvimento
científico, tecnológico e cultural, está contemplado
na proposta de reforma da educação superior com a exigência
de que as universidades apresentem um Plano de Desenvolvimento Institucional
(PDI). Conforme o artigo 28 do anteprojeto, propomos que as instituições
apresentem, a cada cinco anos, um plano com objetivos e metas de ensino,
pesquisa e extensão, além de todo o planejamento necessário
para a otimização de recursos e melhoria de desempenho.
Nossa proposta faz uma opção clara e objetiva para um projeto
de nação soberana e um novo modelo de desenvolvimento para
o país, que tenha a justiça social como premissa. Alguns
setores da esquerda têm optado em não apoiar as próprias
bandeiras históricas das categorias, colocando sua tática
política em primeiro lugar e tentando impedir esse debate. Queremos
saber desses grupos, em que ponto do anteprojeto estão objetivamente
colocadas essas críticas. Quanto ao ProUni é um programa
de bolsas pagas pelo Estado, como alias é recomendável em
qualquer programa republicano.
Boletim ADUnB - Uma
parte da comunidade acadêmica questiona o anteprojeto por considerá-lo
privatista e mercantilista e entende as mudanças como parte do
receituário do Banco Mundial, OMC e FMI. O governo assegura que
há pontos na reforma que garantem a educação superior
pública gratuita e de qualidade, em todos os níveis, bem
como seu caráter estratégico para o país. Essa, vale
lembrar, foi uma das bandeiras defendidas pelo presidente Lula e pelo
PT nesses 25 anos de militância. Quais são esses pontos que
fortalecem a universidade pública?
Ministro Tarso Genro - Seria muito importante que estes grupos
apontassem quais artigos do anteprojeto embasam esta argumentação,
porque nós os retiraríamos. A leitura do texto apresentado
pelo MEC apresenta claramente nosso posicionamento, que é bem diverso
daquele apresentado pelos organismos financeiros multilaterais. Nós
não compactuamos com a idéia que o hemisfério sul
não deva produzir ciência e tecnologia e o anteprojeto demonstra
isso. Nós definimos claramente nossa visão do papel central
que a Universidade Pública deve cumprir, ao retomarmos o veto ao
PNE, implementando a meta de 40% de vagas nas instituições
públicas, num contexto de expansão do sistema. A autonomia
orçamentária e financeira será um avanço para
as instituições federais, que hoje enfrentam grandes dificuldades
para realizar um planejamento a médio e longo prazo. É importante
destacar que o anteprojeto apresenta uma posição pelo descredenciamento
das Fundações, mas sobre essas posições do
anteprojeto não temos visto esses grupos contrários se posicionando.
Reafirmo a importância desses setores apontarem no anteprojeto o
respaldo de seu posicionamento. Esses setores minoritários têm
o direito de ser contra, mas é necessário que tenham a mínima
racionalidade de apresentar argumentos para o debate, para que ele tenha
racionalidade.
Boletim ADUnB - O
anteprojeto diz que 75% do orçamento do MEC serão destinados
às universidades públicas. Mas a comunidade acadêmica
tem dúvidas a esse respeito e há muitos docentes que temem
pelo financiamento do ensino superior público. É que esse
valor contará somente com verbas provenientes dos impostos e não
das contribuições, que são as principais fontes de
receita da União. Além disso, o anteprojeto não inclui
a DRU, que levará quase 20% desses 75% destinados à educação
pública superior, bem como as transferências para os estados
e municípios. Como será feito, efetivamente, o financiamento
do ensino superior público? Como o governo garantirá, com
esse projeto, uma educação superior pública, gratuita
e de qualidade diante de tantas restrições orçamentárias?
Ministro Tarso Genro - O compromisso do Presidente Lula é
com a recuperação das Instituições Federais
de Ensino Superior (Ifes). Esse item, presente na Reforma, jamais poderia
estar desconectado de ações imediatas. Assim, foi absolutamente
imprescindível que, em conexão com as propostas de efetiva
autonomia e financiamento apropriado no futuro, fossem assegurados avanços
no presente. Todas as instituições federais tiveram neste
ano aumento substancial em suas verbas de custeio, sendo que nenhuma delas
terá menos de 34% de aumento comparado com o ano anterior. Se considerarmos
que há quase uma década não havia efetiva variação
nesses recursos, trata-se do maior aumento de recursos nos tempos recentes.
A subvinculação será um grande avanço, possibilitando
um financiamento regular em duodécimos, que garante as atividades
normais de rotina das instituições. Além disso, permitirá
um orçamento a mais que deverá ser definido pelo mérito
das propostas apresentadas, ou seja, a partir das propostas de ampliação,
qualificação e extensão de seus serviços de
cada uma das instituições.
Boletim ADUnB - Como
fica a situação dos cursos pagos nas universidades públicas,
já que, além de agredirem a Constituição,
muitos deles estão sob suspeita de irregularidades nos contratos
das fundações de apoio privadas e sendo investigados pelo
TCU? Os alunos das universidades públicas vão continuar
pagando para fazer um curso de extensão ou uma pós-graduação?
O senhor não acha que a permanência desses cursos não
é um precedente para a privatização das instituições
de ensino superior?
Ministro Tarso Genro - A Constituição Federal determina
que o ensino regular público não pode ser cobrado e é
exatamente isso que o anteprojeto afirma, no seu art. 35, inciso XII.
Esse artigo institui o princípio da gratuidade dos cursos de graduação
e de pós-graduação. É importante ressaltar
que a proposta do MEC delimita a pós-graduação aos
cursos de mestrado e doutorado, retirando, portanto, a especialização
da pós-graduação. O processo de privatização
teve curso em decorrência da redução de financiamento
para o custeio e expansão ocorrido ao longo dos últimos
dez anos antes do Governo do presidente Lula. Com a nossa proposta em
relação às fundações e a nossa proposta
de autonomia financeira, somados ao aumento de verbas para as universidades
públicas, já em curso, acreditamos que o Estado irá
retomar o seu papel estratégico com relação à
educação no Brasil. Com isso tudo, os sinais de privatização
branca devem findar; a não ser que elas sejam restabelecidos em
função de autonomia da universidade, logo determinada pelo
seu corpo interno, o que nós não cremos.
Boletim ADUnB - Nos
últimos tempos a história da luta no campo da educação
no Brasil tem se constituído em torno de bandeiras levantadas pelos
movimentos sindical e popular, inclusive pelo PT e pela CUT. No entanto,
boa parte dos docentes considera que esse anteprojeto de reforma universitária
não busca a materialização dessas bandeiras. Como
o ministro avalia as críticas de que a reforma universitária
traz soluções neoliberais para o ensino público superior?
Ministro Tarso Genro - Todas as posições são
legítimas compõem o mosaico democrático. No entanto,
gostaríamos de estabelecer um diálogo mais efetivo com esses
grupos para que eles pudessem apontar objetivamente onde estão
essas soluções neoliberais. O Ministério
nunca foi convidado pelo Sindicato Nacional dos Docentes para algum debate
sobre a reforma, nós é que convidamos. É importante
destacar o apoio ao debate da reforma que vem sendo construído
por importantes movimentos sociais, como a Via Campesina, o MST, todas
as centrais sindicais, a FASUBRA, a UNE, a UBES, a CONTEE, a CNTE, a SBPC,
a ABC, a ANDIFES, o Pró-IFES, o Movimento Negro, o Movimento dos
Sem Universidade. Enfim, é importante destacar que estas críticas,
infundadas - pois não são apresentadas de maneira objetiva
no anteprojeto, não têm o respaldo da grande maioria dos
movimentos de educação. A reforma segue as diretrizes do
programa de Governo apresentado pelo Presidente Lula no primeiro turno.
Boletim ADUnB - Alguns
setores das universidades públicas, representados por docentes,
funcionários e até mesmo estudantes, estão resistindo
ao anteprojeto porque, segundo eles, descredencia as fundações
de apoio privadas. No entanto, a reforma limita-se a transferir as atividades
e funções por elas desempenhadas para as próprias
universidades. Exemplos disso são a Lei de Inovação
Tecnológica e os cursos pagos. Que solução o MEC
pretende dar a essa contradição?
Ministro Tarso Genro - Não vemos contradição
alguma. Atualmente, boa parte das ações das fundações,
dentro das instituições federais, decorrem das dificuldades
de gestão impostas pelo modelo atual. Quando as instituições
puderem trabalhar com autonomia, nos moldes de orçamento global,
certamente ou as fundações deixam de existir, por falta
de necessidade, ou então assumem outro tipo de relação,
desempenhando um papel complementar, o que não quer dizer não
importante. O essencial é que, de qualquer forma, as fundações,
redefinidas nos seus papéis, devam ser absolutamente transparentes
e com interação positiva com as instituições.
Por sinal, hoje temos fundações que tentam trabalhar assim.
O que impede maior transparência não são os desejos
de seus dirigentes, mas, sim, os empecilhos de uma universidade com muito
pouca autonomia de gestão, tornando as fundações
uma inevitável e, às vezes, indesejável necessidade.
Mas seria muito importante que esses setores apresentasse suas propostas,
para que pudéssemos aperfeiçoar a reforma universitária,
possibilitando a afirmação da autonomia e da produção
de conhecimento que impulsione o país para um novo modelo de desenvolvimento
e a constituição de uma pactuação social em
prol das necessárias transformações que o país
precisa.
Boletim ADUnB - Outro
ponto polêmico do anteprojeto é a abertura para o capital
estrangeiro. Recentemente um dos representantes da UNE (União Nacional
dos Estudantes) declarou que é injusto dizer que o governo, com
este projeto de reforma universitária, esteja abrindo espaço
para o capital estrangeiro. Ele chegou a dizer que, ao contrário,
o governo está restringindo essa participação a apenas
30%. Mas sabemos que o que acontece é que o anteprojeto introduz
a abertura para o capital estrangeiro em vez de proibir essa participação.
Como fica essa questão da abertura para o capital estrangeiro e
qual a posição do ministro sobre isso?
Ministro Tarso Genro - É importante destacar que a atual
legislação não proíbe, de maneira alguma,
à entrada deste capital. Uma série de consultorias, de consultores
com grande conhecimento da legislação, tem se dedicado a
entrada de instituições estrangeiras sem excelência
acadêmica e com finalidades exclusivamente econômicas. Consórcios
acadêmicos com instituições estrangeiras, que tenham
por objeto o desenvolvimento acadêmico e tecnológico são
importantes e devem ser incentivados, principalmente com países
em desenvolvimento como a Índia e a África do Sul ou entre
os países de língua portuguesa, com vistas ao desenvolvimento
cultural. Mas é importante que fosse destacado, por aqueles que
constroem esta crítica, a legislação que restringe
atualmente a entrada do capital estrangeiro, para que não acabem
aproximando sua argumentação daqueles que criticam essa
proposta com vistas a interesses econômicos.
Boletim ADUnB - Por
que o Ministério da Educação apresentou um projeto
de reforma universitária totalmente diferente do Plano Nacional
de Educação da Sociedade Brasileira, construído como
uma proposta alternativa às políticas neoliberais, o qual
contou com a participação ativa e intensa de representantes
do PT, pessoas que hoje compõem o governo Lula, projeto este que
apresenta, dentre tantos avanços, a luta contra a desregulamentação
da autonomia?
Ministro Tarso Genro - Os pressupostos e afirmativas apresentados
na pergunta não são verdadeiros, na nossa visão.
O projeto que estamos construindo, com a valorosa contribuição
das entidades, é de uma universidade inclusiva, democrática
e de qualidade. A reforma da educação superior vai ampliar
o acesso de jovens ao ensino superior, fortalecer a universidade pública
e gratuita e estabelecer parâmetros de qualidade para que a universidade
cumpra o seu papel de democratização do conhecimento, contribuindo
para o crescimento sustentável do Brasil com inclusão social.
Antes de tomar posse, em entrevista, o presidente Lula deu as diretrizes
do que viríamos a propor, de que a educação
superior é importante na formação acadêmica
e ética de recursos humanos, nas atividades de pesquisa cientifica
e tecnológica e no desenvolvimento cultural, econômico e
social da nação. Para construir um país soberano
é essencial investir em seus recursos humanos, em educação,
ciência e tecnologia. Contemplamos uma série de diretrizes
do PNE, com especial destaque a meta de 40% das matrículas nas
universidades públicas.
Boletim ADUnB - Os
empresários da educação também rejeitaram
o anteprojeto e um dos motivos da rejeição foi o estabelecimento
dos conselhos comunitários. Em que esses conselhos podem interferir
nas universidades privadas já que está previsto que eles
terão apenas função consultiva?
Ministro Tarso Genro - A criação do conselho de natureza
consultiva visa assegurar a transparência e a participação
da sociedade em assuntos relativos ao ensino, à pesquisa, à
extensão, à administração e ao planejamento
das universidades, que terão autonomia para escolher a sua composição.
Boletim ADUnB - Por
que as críticas feitas pelos docentes ligados ao Sindicato Nacional
dos Docentes das Instituições de Ensino Superior relativamente
ao anteprojeto de reforma universitária apresentado pelo Ministério
constituem impedimento para a participação deles em eventos,
como a audiência prevista para esta sexta-feira (24/02/2005) com
a presença do presidente da República, bem como um obstáculo
para que sejam recebidos pelo ministro? Por que o ANDES-SN não
foi convidado a participar da audiência com o presidente Lula?
Ministro Tarso Genro - A audiência realizada com o presidente
foi organizada em conjunto com as entidades que vêm apoiando a necessidade
do debate da reforma e os pressupostos do anteprojeto, para que não
se cristalizasse na sociedade a idéia que vinha sendo apresentada
por alguns setores políticos e econômicos de que a reforma
não era necessária. Infelizmente, apesar de nossos esforços
em dialogar, o ANDES não tem se mostrado disposto a tanto. Temos
participado de uma série de debates com diversas instituições,
mas, infelizmente, nunca recebemos um convite do ANDES para fazermos este
debate. Recebemos o Sindicato no dia 21 de dezembro e atualmente o Sindicato
tem participado do GT que vem discutindo a Gratificação
por Estímulo à Docência. Não tenho dúvidas
do quanto a reforma seria qualificada se tivéssemos uma maior participação
desse Sindicato, que tanto já lutou pelo fortalecimento da universidade
pública, que é nossa prioridade também.
|
|