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"Romper com os diversos
arames farpados TEXTO E FOTO: Stela Guedes Caputo
Jornal da Aduff - Como esse encontro de mulheres do MST está inserido na luta geral do movimento pelo reforma agrária? Itelvina - Nosso encontro está dentro da Jornada Nacional de Lutas e, já há alguns anos, aproveitamos o 8 de março para organizar a Jornada de Lutas das Mulheres sem Terra. Não é a única forma de luta, mas é uma delas porque também nos ajuda a construir uma identidade da mulher trabalhadora. Na Jornada, as mulheres são protagonistas e organizam desde a vinda ao encontro e todo o processo de conscientização das mulheres na base. As mulheres do MST, em todos os estados, estão mobilizadas esta semana na luta pela reforma agrária. J.A - Na abertura vocês realizaram uma marcha contra a política do governo Lula. Quais são as críticas e quais as reivindicações? Itelvina - O impasse atual é determinado pela intransigência do governo, que manteve por mais de três semanas a mesma proposta rejeitada por todas as assembléias gerais das seções sindicais em greve, e mais várias AGs das quais, mesmo não tendo aderido à paralisação, mantêm o processo de mobilização. Esta proposta distancia a situação salarial dos docentes da carreira de 1º e 2º graus dos de 3º e não viabiliza a paridade. O impasse reside nisso, pois esses itens, somados à recomposição do poder aquisitivo dos salários frente à inflação sem fortalecer as gratificações foram as prioridades votadas pelos docentes para a negociação com o governo. O governo não cedeu, mesmo diante das alternativas apresentadas pelo movimento quando flexibilizou sua proposta na Mesa. Não obstante a disposição, demonstrada pelos docentes, em facilitar as negociações, o governo rompe o diálogo e, pela ação autoritária, busca fazer valer sua proposta. J.A - Como as mulheres participam do encontro? Itelvina - O objetivo maior é fortalecer a participação das mulheres e estamos, de maneira geral, empenhados em incentivar essa participação. As instâncias de base de nosso movimento são núcleos de família onde, teoricamente, deveriam participar o homem, a mulher e os filhos, mas não é isso que nossa história revela. Na prática é o homem que avança e a mulher recua porque culturalmente nosso movimento é machista. É preciso entender, e trabalhamos muito para isso, que só nos representamos quando participamos. Cada mulher tem sua própria crítica e sugestão e, nas reuniões, nos seminários, nos encontros, nos espaços de deliberação não basta que nossos maridos participem porque um não substituí o outro. Queremos seguir na contramão da cultura em nosso país porque as organizações dos movimentos sociais são construídas dentro dessa estrutura machista e a reproduzem na forma, na metodologia. J.A - E como se muda essa cultura? Itelvina - Na participação concreta nas lutas diárias, cotidianas. Enfrentamos as grandes questões econômicas, as grandes questões sociais nesse país e não abrimos mão disso. Mas, ao mesmo tempo, precisamos ir mudando a forma como nos relacionamos entre nós, como nos relacionamos com a natureza. Essas lutas não são inferiores às questões gerais, fazem parte de um mesmo conjunto. Costumo dizer que romper com o arame farpado do latifúndio é difícil, mas romper com os diversos arames farpados que nos foram colocados é revolucionário. J.A - Como os homens participam? Itelvina - Somos aqui 300 mulheres e 77 crianças. Com exceção de poucas, as crianças costumam ser mais apegadas às mães e as mães também às crianças. A tendência, por isso, seria que as mulheres acabassem não participando das discussões e dos importantes debates que travamos aqui. Mas, também já é nossa tradição, que a creche dos encontros e a cozinha seja responsabilidade dos homens. Assim, são 25 educadores na equipe de apoio para o encontro. Desses, 18 são homens. Vamos construindo de forma lenta, na pedagogia do exemplo, do cuidado, que cria referências diferenciadas de como é possível fazer. São homens jovens que já estão mais habituados à discussão de gênero. J.A - Mas não deve ter sido fácil construir essa nova realidade. Os homens não estranharam? Itelvina - No começo foi mais difícil e ainda não está totalmente resolvido, mas os resultados positivos são frutos de anos de debates. Os homens acabam entendendo que não são menos homens quando cozinham aqui ou em casa. Da mesma forma, não será menos homem se ninar seu filho ou filha. É possível ter outras relações sociais onde as diferenças biológicas não se transformem em desigualdades. Com isso, homens e mulheres se preocupam juntos com os filhos, com a natureza, com a sociedade. Dentro de um mundo tão opressivo e tão violento pode parecer um grão de areia, mas certamente fazem diferença para construirmos um mundo diferente. Se somos tão bons no discurso, precisamos também ser bons em gestos e práticas cotidianas porque esses são os que transformam. J.A - Não só os homens são formados em nossa cultura machista. As mulheres também são formadas nela. Quem é mais difícil mudar, o homem ou a mulher? Itelvina - - Os dois. Com os homens é difícil entrar na assunto. Quando fazemos o debate de gênero falamos de poder e isso mexe em privilégios. Os homens têm mais resistência em discutir o assunto, mas não é impossível, principalmente com os jovens que já possuem bem mais consciência de gênero. Muitos companheiros querem discutir o assunto. Já com as mulheres é mais fácil chegar, mais fácil reunir. Por nossa própria formação cultural estamos mais habituadas a falar de nós mesmas, a chorar, compartilhar, a expor fraquezas e forças. Por outro lado, o processo de submissão é bem violento, por isso as mulheres incorporam a cultura machista. Nos reunimos e falamos aqui, mas é difícil transformar o que discutimos e aprendemos em atitudes. Dizer Não! Dizer Basta! Quando for preciso. As diferenças se transformam em desigualdades e se naturalizam. J.A - Há registros de violência contra a mulher no MST? Se houver, como vocês lidam com isso no movimento? Itelvina - Não sei se existem estatísticas a respeito, mas não posso dizer, por isso, que, no MST, não existe violência contra a mulher. Contudo, temos algo a nosso favor que é a própria organização social dos acampamentos. Através do diálogo com a comunidade ocorre a pressão sobre o indivíduo. Num acampamento, se o homem bater na mulher ele será cobrado. Da mesma forma se houver, seja de parte da mãe ou do pai, violência contra os filhos. A pressão exercida pelos objetivos coletivos não chega a impedir a violência, mas inibe enquanto as medidas formadoras vão sendo construídas e vividas. J.A - Como as mulheres saem de encontros como esses? Itelvina - Elas voltam para seus acampamentos e assentamentos mais animadas. Os encontros revelam lideranças. Todos têm oportunidade, participam, cantam, discutem. Elas se organizam durante meses para vir. Estudam, preparam culinária, artesanato, medicina alternativa. Tudo isso resgata a auto-estima. A convivência entre todas nós, aqui, forma tanto quanto o que estudamos. J.A - E como tudo isso vem refletindo na participação das mulheres nos cargos de direção do movimento? Itelvina - Desde que surgiu como organização nacional, em 84, o MST já explicitava a vontade e a necessidade de participação das mulheres. Mas, entre o que está escrito e a prática há muita diferença. Acontece que somos mulheres do Movimento Sem-Terra e não queremos estar à parte. Assim, de 2002 para cá, o processo de debate interno deliberou que o núcleo de base, as instâncias deliberativas de base sejam coordenadas por um homem e por uma mulher. Na direção Nacional também. Às vezes é difícil conseguir isso em todos os núcleos, mas seguimos insistindo. Pode parecer pouco, mas não é porque não é um conselho, é uma norma e, como norma, deve ser aplicado. Ao longo desses anos aprendemos uma coisa. As mulheres querem participar, mas não se acham preparadas, acham que não sabem como fazer. Quando chegamos nas direções descobrimos que os homens também não sabem, mas eles são mais atirados para isso do que nós. O melhor dessa experiência é que ambos, homens e mulheres aprendem muito e, com isso, todo o MST se fortalece. |
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