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Boletim Eletrônico da ADUFF
Gestão LUTAR NA VOZ ATIVA (biênio 2010-2012)
Ano 9     10/09/2010  

 

É o fim dos cursos pagos na UFF
Plebiscito oficial consagra a vitória da gratuidade
em todos os níveis de ensino

Estudante da Faculdade de Direito participa do plebiscito sobre os cursos pagos.
Estudante da Faculdade de Direito participa do plebiscito sobre os cursos pagos.

O resultado final do plebiscito sobre os cursos pagos não deixa dúvidas: a UFF quer ser 100% gratuita. Depois de 5 dias de votação em toda a universidade, saiu o resultado da consulta à comunidade acadêmica: 86,78% dos votantes optaram por uma UFF livre de taxas e mensalidades, na qual prevaleça a gratuidade em todos os níveis de ensino. Trata-se de um resultado bastante expressivo, principalmente se levarmos em conta o fato de que foi massiva a participação de estudantes, professores e funcionários na consulta: foram 13326 votos no total. Após semanas de intensos debates em toda a universidade, 11497 membros da comunidade acadêmica optaram pela gratuidade total na UFF. A comissão nomeada pelo CUV para organizar o plebiscito está de parabéns porque, apesar de todas as dificuldades, conduziu com habilidade a consulta à comunidade acadêmica. Carlos Carraro, Regina Toledo, Paulo César, Lúcia Helena Vinhas e Lucas Melo, parabéns pelo excelente trabalho que fizeram à frente da comissão do plebiscito!

Em que pese o fato de ser assegurada pelo texto da Constituição Federal de 1988, a gratuidade do ensino público em todos os níveis há muito tempo não é realidade em nosso país. Quando olhamos para as universidades públicas de todo o Brasil, o que vemos é a proliferação desenfreada de cursos pagos, principalmente de pós-graduação lato sensu. Não são poucos os que enriqueceram – e ainda enriquecem – às custas da privatização do ensino superior público. Na UFF, no entanto, esses grupos que se apropriam da universidade para o atendimento de seus interesses privados receberam da comunidade acadêmica a resposta que mereciam há anos: SIM, nós queremos uma UFF 100% gratuita. Essa resposta vinha há muito tempo presa na garganta, visto que a polêmica com relação à existência de cursos pagos em nossa universidade surgiu com força em 1998, época em que fora constituída uma Assembléia Estatuinte paritária para elaborar um novo estatuto para a UFF. Naquele momento, decidiu-se que os pontos divergentes entre os textos aprovados pela Assembléia Estatuinte, com quórum qualificado, e o Conselho Universitário seriam levados à decisão da comunidade acadêmica por meio de um plebiscito com voto universal. A questão da gratuidade foi polêmica numa universidade pública, por mais estranho que isto possa parecer. Só depois de 12 anos – e às custas de muita mobilização – o plebiscito pôde de fato sair do papel.

Entenda o que foi votado no plebiscito

No plebiscito, votou-se para dirimir a divergência existente entre dois textos: um redigido pela Estatuinte de 1998 e o outro pelo Conselho Universitário. Confira o teor de cada um dos textos:

  • Texto da Estatuinte: “A UFF será regida pelos seguintes princípios: ... III – da natureza pública e gratuita do ensino, sob responsabilidade da União;...”
  • Texto da Comissão de Sistematização do CUV: “O princípio da gratuidade do ensino aplica-se aos cursos de graduação e de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado).”

A pergunta feita pelo plebiscito à comunidade acadêmica foi: “você concorda que deva prevalecer o texto da Estatuinte?” A resposta dada pela imensa maioria foi SIM. Agora é esperar que finalmente seja acatado o desejo da maior parte da comunidade.

Das manobras no CUV às barricadas na Engenharia: muitas pedras no caminho

Não foi por acaso que o plebiscito sobre os cursos pagos demorou 12 anos para sair do papel: colocar em xeque a existência desses cursos em nossa universidade significa mexer com interesses poderosos. Afinal, são muitos os que se locupletam com a privatização dos espaços da UFF. A consulta à comunidade, apesar de prevista desde 1998, só foi possível graças às mobilizações protagonizadas em conjunto por ADUFF, SINTUFF e DCE. Nessa luta, as três entidades encontraram à sua frente todo o tipo de obstáculo. No ano passado, os setores contrários à realização do plebiscito chegaram a levar ao CUV faixas com dizeres como “Não ao plebiscito: em defesa da democracia”, “A UFF não aceita mais um Muro de Berlim” e “Abaixo o patrulhamento ideológico”. Não satisfeitos, aprontaram ainda mais já no período de realização da consulta à comunidade, erguendo verdadeiras barricadas no hall da Escola de Engenharia para impedir que fosse colocada uma urna em seu interior. A urna acabou ficando do lado de fora do prédio, o que não impediu a participação da comunidade local: foram 378 votos pelo SIM e 494 pelo NÃO. Vale registrar que esta foi a única urna onde houve vitória do NÃO. Nas demais, até mesmo em locais onde florescem cursos pagos, a vitória do SIM foi bastante expressiva. Esse é o caso, por exemplo, da urna do Direito e também dos cursos de Administração, Ciências Contábeis, Turismo, Nutrição e Odontologia. Confira abaixo o resultado do plebiscito, urna por urna.

Professoras Marina Barbosa, Cristina Miranda e Ana Cristina Santos. Mapa de votação: resultado do plebiscito urna por urna

Apesar das pedras no caminho da democracia, vencemos

A vitória do SIM no plebiscito sobre os cursos pagos da UFF é a vitória de todos os que defendem a universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada. Trata-se da vitória acachapante de uma concepção de universidade sobre outra. Nas palavras da presidente da ADUFF, professora Gelta Xavier, “o resultado vai ter uma repercussão nacional, pois ele se coaduna com a luta do ANDES-SN contra toda forma de cobrança nas universidades públicas, em especial no que se refere à atuação das fundações de direito privado, agentes diretamente beneficiados pela privatização do ensino. Nós - docentes, técnicos e estudantes - trabalhamos juntos na construção de uma campanha pela gratuidade total dos cursos e garantimos que a UFF seja a primeira universidade do país nessas condições. Agora, queremos multiplicar a informação para estimular outras instituições de ensino superior a debaterem o assunto e adotarem a mesma medida.” Lucas Melo, do DCE-UFF, foi outro a saudar o resultado do plebiscito: “Sabemos que já há professores ligados aos cursos pagos se articulando para tentar deslegitimar o plebiscito. O resultado da consulta é uma vitória política muito importante para nós, mas será preciso consolidá-la no próximo CUV com uma grande mobilização. O resultado desse plebiscito tem potencial para transformar a universidade e, quem sabe a partir da experiência da UFF, não iniciamos uma mobilização nacional contra os cursos pagos?”

Através do plebiscito, a UFF disse em alto e bom som que não quer mais cursos pagos em suas instalações. Isto é algo que alguns setores certamente tinham medo de ouvir, o que ajuda a explicar sua oposição ferrenha à realização do plebiscito. No entanto, a realidade é inescapável: a maioria da universidade é contra os cursos pagos. Esperamos que aqueles que ergueram faixas e barricadas contra a realização dessa consulta agora respeitem o seu resultado, que expressa o desejo da comunidade acadêmica da UFF. Já há algum tempo pairam no ar, aqui e ali, ameaças – algumas veladas e outras explícitas – à validação do resultado do plebiscito em caso de uma vitória do SIM. Tememos que agora setores de vocação golpista tentem, através de artifícios jurídicos, se sobrepor à vontade da comunidade universitária. Se isto acontecer, será lamentável. Seja como for, continuamos prontos para a luta e combateremos com firmeza qualquer possibilidade de desrespeito ao resultado do plebiscito. Agora que já se conhece a vontade da comunidade acadêmica, ela deve ser acatada, sob pena de vermos a democracia universitária reduzida a uma grande piada. A realização do plebiscito, por si só, já foi uma grande conquista, e o seu resultado é uma conquista ainda maior. Não permitiremos que ela se perca.

Apesar das barricadas erguidas no hall da Escola de Engenharia...
Apesar das barricadas erguidas no hall da Escola de Engenharia...

  ... o plebiscito teve ampla participação em toda a universidade.
... o plebiscito teve ampla participação em toda a universidade.

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