Por 49 votos contrários e 13 a favor, o Conselho Universitário (CUV) da UFF rejeitou a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim. A decisão foi tomada em sessão do Conselho, no dia 14 de maio, e publicada no Boletim de Serviço da Universidade, nesta segunda-feira, 9 de junho.
A proposta de conceder o título a Jobim foi apresentada por professores que integram o Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) na mesma sessão em que o CUV cassou o título de doutor honoris causa do coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação no período mais sangrento e repressivo da ditadura empresarial-militar. Sem quórum para tal, a matéria não chegou a ser apreciada na sessão do dia 12 de março do Conselho Universitário, sendo votada apenas no dia 14 de maio.
Desde a sua proposição, a Aduff se manifestou contrária à homenagem e evidenciou posições antagônicas de Jobim à luta pela verdade e justiça, como o posicionamento contrário do ex-ministro da Defesa à revisão da Lei da Anistia e à criação da Comissão Nacional da Verdade.
“Assim como nós defendemos a retirada do título de Jarbas Passarinho, nós igualmente discordamos que se dê esse título a Nelson Jobim. Primeiro, por sua trajetória contrária, refratária à luta dos movimentos sociais, à luta em defesa da memória da Ditadura na perspectiva dos que dela sofreram”, disse a professora Joana D'Arc Fernandes Ferraz, que representou a Aduff na reunião do CUV do dia 12 de março.
Para a entidade, o não acolhimento da emerência é vitória do movimento por memória, verdade, justiça e reparação na Universidade.
Sem anistia para os golpistas de ontem e de hoje!
Conselheira docente pela Escola de Serviço Social da UFF, a professora Eblin Farage, destacou em reunião do CUV, no dia 14 de maio, que o Brasil é um dos poucos países da América Latina que anistiou também os torturadores. Ela argumentou que a universidade pública não deve homenagear “alguém que defende que militares, seja em qualquer tempo histórico, não sejam punidos pelas suas ações de tortura”. “Nós defendemos anistia para presos políticos, para quem defende a democracia e foi perseguido pela ditadura empresarial-militar. Qualquer defesa contrária a isso deveria ser por nós repudiada”, disse.
Conselheira estudantil pelo DCE-UFF, Lívia Ferreira Santos relembrou as falas “extremamente infelizes” do ex-ministro, ao considerar como “revanchismo” a questão da revisão da Lei da Anistia.
“Essa análise é um retrocesso! Se hoje a gente precisa pensar na luta por verdade, memória e justiça é porque até hoje os familiares não sabem onde estão os corpos dos desaparecidos durante a ditadura civil-militar. Enquanto isso, os generais que assassinaram nosso povo, que torturam estudantes, seguem impunes. (...) O espaço O CUV deveria caminhar para, no futuro, homenagear e dar o título de Doutor Honoris Causa para os estudantes que foram assassinados lutando pela justiça para o nosso povo. Estudantes como Fernando Santa Cruz, Telma Regina, Ivan Mota Dias. Esses sim merecem ser homenageados e realmente lutaram pela justiça em nosso país”, defendeu.
Conselheiro docente pela Faculdade de Economia, Victor Leonardo ainda destacou os posicionamentos recentes de Nelson Jobim em relação aos episódios de 8 de janeiro de 2023. Em entrevista concedida à CNN, Jobim afirmou que, na interpretação dele, as ações de invasão do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e da sede do STF não podem se compreendidas como tentativa de golpe de Estado, nem atentado violento para eliminar o Estado Democrático de Direito. “O ex-ministro tem posicionamentos que vão na contramão do que já aprovamos neste Conselho. Especialmente em um momento conturbado da vida nacional de ataque à democracia”, pontuou.
Docente da Faculdade de Medicina da UFF, o conselheiro Luis Antonio dos Santos Diego concordou. “Quem não defende esse momento que culminou com a destruição da sede dos nossos Três Poderes como um ataque à democracia, eu não acho que mereça a emerência na Universidade Federal Fluminense, me sentiria muito triste com isso”, declarou.
O mesmo ponto foi corroborado pela conselheira Bernarda Thailania, técnica-administrativa da Universidade e integrante da coordenação do Sintuff. “Toda homenagem é também um posicionamento político, ela manda um recado para a sociedade. Num momento em que estamos tentando fazer com que os golpistas de hoje e de ontem sejam punidos, cabe pensar se essa é uma homenagem válida. Em vários momentos em que se posicionou, não foi favorável à democracia e nem à classe trabalhadora”, questionou.







