Abr
03
2025

Na semana em que se "descomemora" os 61 anos do Golpe de 1964, Aduff reivindica luta contra a anistia para golpistas do passado e de hoje

Na semana em que o Golpe de 64 completa 61 anos teve ato, passeata, entrega da Medalha Chico Mendes e atividades no Rio e em dezenas de outras cidades do país: "para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça", afirmaram as manifestações.

“Ainda estamos aqui: sem anistia para os golpistas de ontem e de hoje - ditadura nunca mais”. Eram essas as mensagens da faixa que abria a caminhada que percorreu os quase 1.200 metros que separam o prédio do antigo Dops da sede da ABI, no Centro do Rio. 

A manifestação marcou a "descomemoração" na capital fluminense dos 61 anos do golpe empresarial-militar que, em 1964, impôs 21 anos de ditadura no Brasil, mantida à base de censura, repressão e centenas, ou milhares, de pessoas que foram "desaparecidas". 

No local escolhido para dar início a um ato repleto de simbolismos, na esquina das ruas da Relação com Inválidos, fica a sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). A construção de 1910, tombada como patrimônio arquitetônico, serviu de prisão política a duas ditaduras: do Estado Novo e do regime instalado após o golpe empresarial-militar de 1964. 

Preservar a memória

Nos discursos que antecederam a passeata, foi defendido que o espaço seja transformado em centro de cultura e memória. A professora Joana D'Arc Fernandes Ferraz, que integra a diretoria da Aduff e a diretoria executiva do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, participa das iniciativas voltadas para esta demanda. “Já existe um centro assim em São Paulo, mas no Rio não temos nenhum espaço de preservação dessa memória, num país que tem uma memória [oficial] bastante excludente e conciliadora”, observa a docente do Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais em Niterói, que participou da manifestação.

Ao longo do ato público, foram muitas as referências ao filme protagonizado pela atriz Fernanda Torres e por Selton Mello (“Ainda Estou Aqui”), que conta a história do deputado Rubens Paiva, sequestrado, torturado e morto pelo regime ditatorial, em 1971.

Também foi observado, e isso foi recorrente no ato, que a estrutura repressiva e as práticas arbitrárias do período da ditadura nunca deixaram de ser reproduzidos pelas forças de segurança, notadamente nas operações nas favelas.

Parada no Clube Naval 

Quando chegou à Avenida Rio Branco, a passeata parou em frente ao Clube Naval. Por quase meia hora, representantes das organizações políticas se revezaram em discursos que pediam o direito à verdade e à justiça.

Colados à organização conhecida por suas posições favoráveis à ditadura, integrantes do grupo Filhos e Netos Por Verdade, Memória e Justiça estenderam uma faixa lilás, de seis metros de largura, com letras garrafais brancas, também com a mensagem “Ainda estamos aqui”. 

Defendiam a memória e a luta por justiça para familiares vítimas dos horrores da ditadura. Um pouco mais à frente, uma manifestante segurava um cartaz que expressava a outra face destacada e associada do protesto: a luta para que os que planejaram um golpe hoje não fiquem também impunes. “Sem anistia para golpista”, dizia a mensagem, que reservava ao ex-presidente Jair Bolsonaro a "lixeira da história”, acusando-o ainda de ter feito um governo que jogou 15,5 milhões de pessoas no mapa da fome.

A manifestação terminou alguns passos mais adiante, na rua Araujo Porto Alegre, em frente à sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), instituição centenária que tem a defesa da democracia como uma de suas marcas históricas.

Pouco depois, começava no auditório da ABI a 37a edição da Medalha Chico Mendes, premiação dada a pessoas (vivas ou in memorian) e organizações que contribuíram com seus atos para a defesa dos direitos humanos. O evento é organizado desde 1989 pelo Grupo Tortura Nunca Mais, com apoio de várias entidades da sociedade civil. Entre elas, a Aduff-SSind.

Sem anistia 

Vice-presidente do Tortura Nunca Mais-RJ e aposentada do Instituto de Psicologia da UFF, a professora Cecília Coimbra caminhou da sede do antigo Dops até a cerimônia na ABI. Ex-presa política, disse que, como quase sempre acontece, se emocionou com a manifestação e com a entrega da Medalha Chico Mendes. 

“A minha geração, que já chegou aos 80, viveu o que foi o governo populista-democrático do João Goulart, acompanhamos o que foi Golpe de 64 e acompanhamos o horror que foi a implantação com o AI-5 do terrorismo de estado, quando a tortura se torna o instrumento oficial do Estado brasileiro”, disse à reportagem da Aduff.

A docente vê na interpretação dada pelos juristas da ditadura para a posterior Lei da Anistia um disparate. “Eles criaram os crimes conexos. Como se os torturadores, aqueles que invadiam nossas casas, que nos sequestraram, que nos matavam e desapareciam com os corpos fossem crimes conexos com a oposição que se fazia ao regime ditatorial daquele período”, observou, ao contestar qualquer semelhança entre os que lutaram contra a ditadura e os que tentaram dar um golpe de estado em janeiro de 2023. 

“Hoje, sem anistia é uma palavra de ordem importantíssima”, resume, ao defender o elo entre a luta contra os golpistas de ontem e de agora. Falamos muito disso na passeata e na entrega da Medalha Chico Mendes. Por que ainda estamos aqui e continuaremos aqui", concluiu.

Da Redação da Aduff
Por Hélcio Lourenço Filho

 

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