Dezessete anos após a sua criação, em 2008, o Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR-UFF) chega a 2025 consolidado, apesar das inúmeras dificuldades atravessadas durante todo este período, para a implementação do instituto. É essa a opinião de professores e professoras com quem conversamos, para a elaboração do projeto “UFF.doc – Conhecendo a UFF através de seus docentes”.
A iniciativa é um projeto jornalístico apresentado no âmbito das reuniões do Grupo de Trabalho em Comunicação e Arte (GTCA) da Aduff e que percorrerá todas as unidades da Universidade para apresentá-las a partir do olhar de docentes da instituição, por meio das suas atividades de pesquisa, ensino e extensão.
História
O pontapé para a criação do IEAR-UFF aconteceu em 1992, com o surgimento do primeiro curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense, em Angra dos Reis. Foi resultado de um projeto de extensão, realizado por docentes da Faculdade de Educação de Niterói (FEUFF), para garantir formação universitária para professores da rede municipal de Angra. Inicialmente funcionando nas instalações de uma escola municipal, e apenas no período noturno, o curso de Pedagogia conquista estrutura e corpo docente próprio, a partir de 2008, com a criação do Instituto de Educação de Angra dos Reis. Em 2011, o IEAR se amplia, com a criação do curso de licenciatura em Geografia e o de bacharelado em Políticas Públicas.
IEAR-UFF em números
Hoje, além dos três cursos de graduação, o IEAR-UFF conta agora com o primeiro mestrado aprovado do Instituto, a Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Políticas Públicas, a especialização em Gestão de Territórios e Saberes (TERESA), 15 ações de extensão em atividade, habilitadas pela PROEX, entre elas o Pré-Vestibular Comunitário Ilê Èkó, além de inúmeros projetos de pesquisas realizados por seu corpo docente e discente.
São 769 estudantes com matrícula ativa no Instituto, 51 docentes, 19 técnicos-administrativos(as) e 30 trabalhadores(as) terceirizados(as), divididos em dois campi: a sede do Instituto, em Jacuecanga, bairro-distrito do município de Angra dos Reis; e o campus do Retiro, onde se localiza a Moradia Estudantil e um laboratório interdisciplinar. A estrutura do Instituto também conta com uma biblioteca, três laboratórios, uma sala de acolhimento para estudantes pais e mães que levam filhos para as aulas, um auditório e uma tenda externa para eventos.
Primeiro programa de mestrado da Costa Verde

À frente da coordenação do curso de Políticas Públicas, a professora Prisicila Riscado entrou na instituição através do primeiro concurso público que funda o bacharelado de Políticas Públicas em Angra dos Reis, doze anos atrás. Ela realça a diversidade do corpo discente do curso e aponta que se no início, o perfil dos estudantes era, majoritariamente, de fora da região, atualmente, cerca de 60% do corpo estudantil é composto de estudantes da região da Costa Verde (formada pelos municípios de Angra dos Reis, Paraty, Mangaratiba e Itaguaí).
“Hoje, mais da metade dos nossos estudantes do 3° ao 8° período têm algum vínculo de estágio com a gestão municipal, o que é ótimo, já que é a natureza do nosso curso. É um curso de políticas públicas que pretende ter esse alcance junto à comunidade, expandir, crescer e se fixar mais no território”, diz. Por isso, ressalta “a importância de que a população conheça as possibilidades que o Instituto apresentam para a região”.
A docente afirma não ter dúvidas de que o primeiro mestrado aprovado do IEAR-UFF, fruto de um projeto do Departamento de Geografia e Políticas Públicas, atua na consolidação da presença da UFF no território de Angra e da Costa Verde. O edital para a seleção da primeira turma da Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Políticas Públicas sai este ano.
“Hoje, coroamos a nossa expansão com a pós stricto-sensu, uma oportunidade ímpar para profissionais e estudantes, não só da região. Ele é o primeiro programa de mestrado da Costa Verde, acho que isso é muito significativo”, reforça. Decana no curso de Políticas Públicas, Priscila destaca a importância e o orgulho de seguir construindo, ampliando e consolidando a universidade pública presente no interior.
“Olhando para trás, vendo de onde saímos e onde chegamos, é uma satisfação e um orgulho imenso, apesar dos vários momentos de dificuldades e de recrudescimento orçamentário. Nós que estamos no interior, a gente sente ainda mais quando há cortes. É muito difícil a permanência dos nossos discentes sem que eles tenham auxílio, em momentos mais difíceis da conjuntura nacional. Isso pesou muito, foi e tem sido muito difícil para nós. Mas a gente consegue passar por essas dificuldades, não esmorecer e seguir construindo, ampliando e consolidando a universidade pública presente no interior, cara, sobretudo, para moradores da região, que tem na UFF a possibilidade de formação de excelência e de mais oportunidades profissionais”, finaliza.
Alunado trabalhador
Professora adjunta do bacharelado de Políticas Públicas do IEAR-UFF, Caroline Rocha enfatiza “o perfil de um alunado trabalhador no curso". “Esse é primeiro ponto que eu ressalto: a importância de oferecer uma educação de qualidade para um aluno, uma aluna, que tem a necessidade de unir o trabalho com o ensino”. A docente destaca ainda que a UFF é uma das poucas universidades do país que oferecem a graduação em Políticas Públicas e importância de ofertar um curso dessa natureza no interior do Estado.
“A gente está localizado num polo de interior, ofertando um curso que não tem em abundância no Brasil. Isso faz com que a gente receba estudantes que não são da região. Atualmente isso tem mudado um pouco, a gente retoma esse perfil de moradores da região, mas durante muito tempo a gente tinha essa presença marcante, justamente por essa oferta. E o retorno que a gente recebe dessa participação dos nossos alunos na gestão municipal é sobre a excelência do nosso alunado e de como os estudantes que realizam estágio, sendo alunos da UFF, têm uma formação distinta. Acho que isso tem a ver com o fato de sermos um curso multidisciplinar, que dá ampla perspectiva para os alunos pensarem políticas públicas, inclusive em momentos de crise”, pontua.
Território tem demanda muito forte por educação diferenciada
“A UFF e o IAR, especialmente, têm tido uma atuação e tem dado uma contribuição muito importante no sentido de apoiar a luta das comunidades tradicionais da região da Costa Verde, em especial a defesa e sua permanência nos territórios. Isso tem sido uma tônica e talvez o que caracteriza bastante nosso programa e a atuação do IEAR na região.”
A afirmação é de Domingos Nobre, professor associado do curso de Pedagogia da UFF Angra, coordenador do Programa Escolas do Território, um conjunto de projetos de pesquisa, ensino e extensão, que atuam, principalmente, na formação de professores e na construção de currículos diferenciados em escolas localizadas em comunidades tradicionais quilombolas, caiçaras e indígenas.

O docente explica que o programa tem uma atuação bastante diversificada e atua em um território em que há uma demanda muito forte por educação diferenciada, organizada através do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), movimento social que congrega caiçaras, quilombolas e indígenas da região de Mangaratiba, Angra dos Reis, Paraty, Ubatuba, além de professores das redes, pesquisadores e militantes na luta por uma educação diferenciada.
“A gente atua, principalmente, na formação de professores para a construção de currículos diferenciados. São professores que atuem em escolas localizadas em comunidades tradicionais”, explica. Como exemplo, ele cita um programa, que funcionou de 2016 a 2024, de formação continuada para professores que atuavam no ensino fundamental das escolas quilombolas do Quilombo do Campinho e do Quilombo do Cabral, realizado através de acordo técnico com a secretaria municipal de educação Paraty.
Conta ainda que em julho deste ano, a UFF formou a primeira turma de professores indígenas guarani do Estado do RJ, na aldeia Sapukai, em Angra dos Reis. O curso de ensino médio com habilitação em Magistério Indígena faz parte de um programa de formação coordenado pelo IEAR, em acordo de cooperação técnica entre a UFF e a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc-RJ).
O professor cita também ações de apoio e de acompanhamento a coletivos ligados ao Fórum de Comunidades Tradicionais, que monitoram a revisão dos planos municipais de educação, na luta pela elaboração de metas e de estratégicas para a implementação de políticas por educação diferenciada, que atendam as demandas das comunidades tradicionais.
“O Programa Escolas do Território tem um conjunto de atuações e uma equipe grande, com vários professores, bolsistas pibic, de extensão, iniciação científica, enfim, são diferentes projetos que dão uma demonstração viva que o IEAR tem uma atuação política muito importante aqui, tanto do ponto de vista da formação, quanto de oferecer subsídios aos movimentos sociais na preservação desses territórios”, enfatiza.
Deslocamento forçado e expropriação de terras na Região da Costa Verde
A construção da BR-101, também conhecida como "Rodovia Rio-Santos", na década de 1970, é um marco importante na história da Região da Costa Verde e está diretamente relacionada ao deslocamento forçado e à expropriação de terras de comunidades tradicionais indígenas, quilombolas e caiçaras. Esses grupos resistiram da forma como puderam a um conjunto de transformações que ocorreram na região, em nome do “desenvolvimento”, durante a ditadura civili-militar, e que trouxe ao território grandes empresas de infraestrutura e turismo.
“Com a BR101, vai haver um processo de expulsão não só dos indígenas, que habitavam o litoral, mas de quilombolas e também dos povos caiçaras. Com a ideia de progresso, chega a usina nuclear, as redes de energia, as plataformas de petróleo, o estaleiro Brasfelt, num processo muito forte de especulação imobiliária e de retirada desses povos das partes mais litorâneas, o que cria uma série de consequências, conflitos e impactos. Até hoje, Angra dos Reis tem uma urbanização sem planejamento, que gerou um processo de privatização das praias com grandes condomínios. Os conflitos ainda existem e as comunidades criam articulações e parcerias com a universidade e outras instituições para seguir resistindo”, enfatiza o professor do curso de Geografia, Gabriel Romagnose Fortunato de Freitas Monteiro.
Efetivar políticas de acesso e trazer mais estudantes à universidade
Recém-chegado na UFF Angra, o docente ingressou na universidade em dezembro de 2024 e já integra a coordenação do pré-vestibular comunitário Ilê Ékó, projeto de extensão criado há três anos por iniciativa das e dos estudantes do IEAR-UFF. As aulas acontecem todos os sábados, nos turnos da manhã e da tarde. Além das aulas, o pré-vestibular também garante a alimentação dos estudantes e realiza alguns trabalhos de campo com os alunos do pré-vestibular.
“Foi uma demanda dos estudantes da unidade, dos coletivos negros daqui e os professores passam a fazer parte disso como um processo que envolve a luta e o engajamento docente e discente. Nesses últimos três anos, a gente teve um aumento de bolsas para os estudantes [do IEAR que participam do pré-vestibular]. Só no último edital, foram 9 bolsas para estudantes da graduação, o que é extremamente importante, e também conseguimos ter mais estudantes do pré-vestibular que ingressam na instituição. Isso já mostra o impacto desse projeto de extensão. É super importante que a gente possa construir, de fato, a partir da universidade, uma sociedade antirracista, igualitária e mais justa”, afirma.

Gabriel também faz parte de um projeto de pesquisa vinculado à educação escolar quilombola, no âmbito do Ministério de Igualdade Racial e do Redes Antirracistas, junto com outras universidades brasileiras. Na UFF Angra, a pesquisa é coordenada pelo professor Diogo Cerqueira e também conta com a participação da professora Paula Regina. O foco é estudar as escolas quilombolas da região da Costa Verde (pegando de Mangaratiba até Paraty, e também o litoral norte de São Paulo) e os currículos de educação diferenciadas, que são implementados a partir das matrizes curriculares.
“Contamos ainda com um projeto de extensão no território do quilombo Santa Rita do Bracuí, que envolve candomblé, permacultura e agroecologia, onde são feitas uma série de atividades, mutirões agroecológicos, formações. Esse quilombo também tem uma escola municipal reconhecida como escola quilombola, que é onde nós desenvolvemos o projeto de pesquisa do ‘Redes Antirracistas’, então as coisas duas coisas se unem”, explica.
Para Gabriel, o IEAR vem, com todos os desafios e dilemas, construindo, cada vez mais, uma parceria com a sociedade e com a comunidade angrense, no sentido de efetivar políticas públicas de acesso e de trazer cada vez mais estudantes à universidade. “Vejo que é fundamental o fortalecimento da nossa instituição, principalmente pensando que é uma instituição que cada vez mais tem uma demanda de investimento, de construção de projetos e pesquisas que atuem diretamente com a própria sociedade, principalmente em Angra dos Reis”, finaliza.
Da Redação da ADUFF | por Lara Abib







